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O problema do lixo em Luanda



Luanda hoje é uma cidade que rebenta pelas costuras. É por isso um excelente desafio a capacidade dos nossos arquitectos, engenheiros civis, urbanistas e outros que devem ser postos em campo para repensar a cidade. Sobre os problemas de Luanda estou convencido que todas as almas angolanas teriam alguma coisa a dizer, algum contributo a dar.

A responsabilidade maior, o gizador da estratégia terá de ser o executivo do novo governador provincial de Luanda, José Maria dos Santos, que recentemente adiantou uma despesa dos cofres de Estado no valor de 20 milhões de dólares pagos mensalmente às operadoras de lixo da capital do país, com o fito de fazerem a recolha dos resíduos, um quadro que deve ser invertido.

O dado é espantoso. E não é espantoso simplesmente pelo volume de dinheiro em questão. Mas o espantoso aqui, no país dos milhões como é o nosso, é que não há, não se sente nas ruas e em toda a parte, qualquer eficiência no sistema de recolha de resíduos e de saneamento da cidade de Luanda.

Passamos por várias experiências, já tivemos várias parcerias e até agora não conseguimos encontrar um método certo para a recolha e tratamento, melhor dizendo para lidar com este problema, numa cidade onde o crescimento populacional está incontrolado e é fomentado pelas muito faladas assimetrias regionais.

Mas esta questão do lixo é um problema sério. É também uma boa fonte de rendimentos para muitos empresários até mesmo em países do chamado primeiro mundo, sendo o caso mais sonante o da Itália onde o lixo gera crise e instabilidade política no País. Felizmente não estamos neste estágio. Entre nós, as repercussões deste problema são principalmente sociais com o lixo e a falta de saneamento a serem dos principais empecilhos para a melhoria do sistema de saúde pública, sendo portanto causadores da maior parte das doenças que se registam entre nós, principalmente, da malária e consequentemente da taxa de mortalidade.

Postas as coisas nos termos em que o novo governador de Luanda o fez, parece-nos claro que concentrou a questão ao negócio do lixo, virando-se contra os afortunados. Mas o problema de uma cidade como Luanda, não tanto pelo seu tamanho geográfico, mas principalmente pelo seu urbanismo (ou falta dele?), para além do tamanho da sua população, dizíamos, o lixo em Luanda é um problema de educação, de boa educação, de higiéne, de consciencialização das pessoas sobre a forma como devem lidar com esta questão. Não basta colocarmos ou retirarmos os contentores. Não basta que as empresas aumentem as suas frotas de “calabrese”.

Para além do trabalho pedagógico que os media devem ter nesta matéria, principalmene a imprensa pública, e aqui não defendo a mera difusão de anúncios publicitários, mas de conteúdos propositadamente elaborados, apelativos, nos programas e vários espaços disponíveis na media, usando tecnologia e muita imaginação para cativar as pessoas e levâ-las a mudarem de atitude.

Outro factor de mudança, são as crianças. Este trabalho com elas deve ser feito a partir da escola. O sistema de ensino tem de estar em condições de potenciar os mais novos sobre a forma como devem lidar com o lixo, ou melhor, com a higiéne pessoal e do meio. E não se faz este exercício com mera retórica, é no quotidiano, na vida da escola que se encontram estas práticas exemplares que depois serão adoptadas e reproduzidas pelos petizes.

Finalmente, e embora ainda não lhes soubemos dar o devido valor, está o trabalho que pode ser desenvolvido pelos assistentes sociais (do Estado ou das ONG). Este é um trabalho mais direccionado para as comunidades concretas, com a população dos bairros, seja dos mais nobres como dos periféricos, para que as pessoas saibam como lidar com o lixo. E porque não pensarmos num método para punir as pessoas que prevaricam nesta matéria? É que em muitos Estados, principalmente nos do chamado primeiro mundo, colocar restos de comida no balde de lixo reciclável pode dar direito a uma multa severa. E porque não encontrar formas para que o cidadão comparticipe nestes 20 milhões de dólares ou quanto for necessário para mantermos a nossa Luanda bem cheirosa?

Ademais, o nosso empresariado tem de perceber que o negócio do lixo não se reduz ao trabalho de recolha. Há uma industria e negócios que se geram a volta do lixo do qual será necessário tirarmos melhores dividendos, para bem da nossa economia.

Vamos ver então como o pelouro de José Maria dos Santos lida com esta matéria uma vez que os seus antecessores falharam. Sem dúvidas, trata-se de um trabalho árduo, mas estamos crentes que os beneficios serão maiores.

ADEBAYO VUNGE, Londres, Janeiro 2011

Publicada na edição 156 do Novo Jornal, em Luanda, Angola

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